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Lorem Ipsum (ad infinitum)

 

Texto usado para "encher lingüiça, com trema mesmo, porque é minha", greeked text, blind text, placeholder text, dummy content, filler text, lipsum e mock-content em inglês, "Lorem ipsum" não é simplesmente um texto qualquer. Tem mais de dois mil anos e é parte de uma das peças da literatura latina clássica. O texto vem das seções 1.10.32 e 1.10.33 da obra "de Finibus Bonorum et Malorum"(Os Extemos do Bem e do Mal"), escrito em 45 a.C. por Marcus Tullius Cicero e é um tratado sobre a teoria da Ética.

Bonito ver que uma das obras mais relevantes sobre a conduta humana é usado como mancha gráfica. Faz pensar... com pesar.


Para quem quiser ler no original essa obra, visite o site de M. TVLLI CICERONIS: DE FINIBVS BONORVM ET MALORVM - LIBER PRIMVS


Escrito por Nikki às 17h50
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INCLUSÃO SOCIAL (I)

INCLUSÃO SOCIAL (I)

 

     Que fila horrível, droga, tenho mais o que fazer, essa porcaria não anda! Pensava entre os dentes o sujeito de camisa marrom, com senha de número 147 – o marcador de leds-com-um-falhando ainda mostrava 26. Estava um calor daqueles que só os que ficam em filas quilométricas sentem: pastoso, cheio de cheiros azedos de sovacos e cabelos mal lavados, camisas usadas pelo terceiro ou quarto dia, um calor que faz com que todas as luzes fluorescentes daquele saguão insosso se tornassem sóis queimando as retinas.

     Chegaram mais dois atendentes para ocuparem seus guichês. Caras sorridentes de cafezinho recém-tomado e tempo de trabalho deliberadamente inobservado. Comum. Normal. Não deveria, mas era sempre assim. Em dias de início de mês essa lengalenga era sempre a mesma. Os rostos dos habitantes das filas eram diferentes, mas com a mesma expressão de raiva resignada, o que fazia com que ao longo das semanas e meses todas as pessoas se parecessem com uma massa de cor indefinida murmurante que deambulava para lá e para cá; coisificar a clientela era decorrência natural daquele trabalho extremamente chato e mal pago. E o cafezinho nem era tão bom assim.

     O marcador já mostrou o número 59. Que bom, teve gente que desistiu. Enquanto isso um som misturado sobre personagens de novela, futebol, alguma notícia do jornal, o nome do presidente precedido pelo indefectível “filho da puta”, já elevado ao nível de pronome de tratamento para certas autoridades do país.

     74. Mais calor; era hora de almoço e os funcionários estavam mais irritadiços. Hora de mudança de turno ou coisa que o valha. O que dizia que eram funcionários, além do crachá com fotos ainda mostrando cabelos e a magreza de vinte anos atrás de alguns, era a empáfia e o olhar antipático de quem iria rosnar a qualquer momento - estavam no topo da cadeia alimentar naquele local.

     110. Aimeudeus, que lerdeza lazarenta...

     127. Só mais vinte. 137. Opa, até que enfim. 147.

     Foi ao guichê um pouco rápido, doido para se livrar logo daquele lugar.

     – Pensionista ou aposentado? – Voz de robô fanho; parecia uma fêmea de jabuti.

     – Aposentado, trouxe os documentos para pegar a mixaria. – Piadinha sem graça.

     – Um momento, por favor, o sistema está lento... hmm – A servidora franziu o cenho; mau sinal. – O senhor pode, por favor, aguardar na sala 34 A? Fica ali ‘nas esquerda’ – apontando para a direita.

     – Ué, deu problema? Que foi que deu aí no sistema?

     – O senhor aguarda na sala 34 A, por favor. Apertou o botão do marcador sem olhar mais para ele. – 155.

 

     Na tal sala 34 A estavam ele e mais dois, todos com expressão apalermada e apreensiva. Não tinha janela, funcionário, nada. Só uma outra porta que dava para um local desconhecido. E por ela saiu um homem alto, muito sério e de cabelo besuntado de gomalina, segurando uma prancheta com papéis. Olhou e contou mentalmente as pessoas da sala, olhou novamente para a prancheta e chamou o primeiro nome.

     – Nair Santos, pode me acompanhar, por favor? Boa tarde ... – entraram pela porta misteriosa, sumindo lá dentro.

Vou esperar mais ainda nessa coisa, o que pode ter dado errado dessa vez com a minha papelada? Cruzou os braços e as pernas, tentando ficar mais tranqüilo. Ao menos estava sentado, e não de pé como antes. Chegou outro homem não tão ensebado.

     – Jairo Gomes Vilhena. Boa tarde ...– sumiram igualmente porta adentro.

     Terceiro homem, carrancudo: – João Lima Neves, é o senhor? Vamos lá?

     Passaram pelo umbral da porta estranha direto para um corredor longo, sem salas nas laterais, mas com uma porta de pintura desgastada no fundo. João pensou ouvir um barulho abafado de choro, mas não quis dar importância. Estava já bastante tenso com essa coisa toda e estava se preparando emocionalmente para ouvir que seus papéis estavam com problemas e que não ia receber a aposentadoria naquele mês.

     – “Seu” João, deixa eu começar logo. Pelo sistema aqui no Instituto consta que o seu nome está na lista de óbitos. Sendo assim, como representante legal do Instituto para esses casos, eu estou lhe encaminhando para a polícia para lhe dar voz de prisão.

     – O quê? Mas como? Não está vendo que eu estou aqui sentado falando com o senhor?

     – Exatamente por isso. Não sei se o senhor está ciente de que, pela Portaria sancionada ano passado pelo Ministério, os que entraram em óbito estão impedidos legalmente de transitarem pelas ruas. Ou seja, ou vai para o cemitério ou vai para a prisão especial. Se o senhor não tiver condições de arcar com as custas do seu funeral por favor preencha o requerimento F7 e apresente junto a este atestado de pobreza anexando o seu atestado de óbito, cópia autenticada do seu CPF e comprovante de residência  para que a Prefeitura lhe forneça um funeral no Cemitério Municipal. Caso contrário, nós vamos ter que levar o senhor para a cadeia.

     – Não, não! Houve um engano aí! – Falava meio sem sentir o corpo, de tão nervoso que estava. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Mas o homem à sua frente estava com um tom tão complacente e seguro que devia mesmo ser verdade isso tudo.

     – “Seu” João, por favor, acalme-se... vou chamar aqui o psicólogo do Instituto para ter uma palavrinha como senhor, tudo bem?

     O homem saiu e voltou uns cinco minutos depois com um outro, de jaleco branco e jeito mais condescendente ainda. Agia como se isso fosse a coisa mais banal do mundo, apesar de ser uma situação patética.

     – Senhor João Neves, muito prazer. Meu nome é Dr. Ari Quadros, psicólogo do Instituto. Soube que o senhor está em fase de negativa de óbito, isso é muito comum, não se preocupe. Estou aqui para ajudá-lo a superar esse trauma e fazer com que o senhor aceite com tranqüilidade o seu funeral e seu descanso merecido desta vida.

     – Só que eu NÃO ESTOU morto, entendeu? Estou falando aqui com vocês, faço tudo que todo mundo faz, isso é pegadinha por acaso? Não tem graça nenhuma. Cadê as câmeras? Vou dar um pau em você, vou processar!

     O psicólogo anotou uns rabiscos em seu caderninho.

     – Agressividade não leva a nada, senhor. Essa fase é realmente dolorosa para muitos, especialmente para aqueles que não estavam doentes antes da morte. Nós compreendemos seu drama, senhor João, mas o senhor deve também querer se ajudar, aceitando o fato e deixando que nós tomemos conta do seu caso como deve ser feito. Eu duvido que o senhor prefira ir para a cadeia especial. Lá o senhor vai passar pelo mesmo processo de óbito de novo, é desagradável, é um sofrimento duplo para a família e ainda onera o Estado. E outra coisa: a Vigilância Sanitária pode lhe aplicar uma multa por andar por aí, o senhor está morto, certo? Então, não pode ficar por aí se misturando aos vivos. Olha só, pelo Instituto o senhor morreu anteontem, não lembra?

     – Anteontem eu estava numa churrascaria! Eu estou vivo, moço – já falando com tom de menino perdido – olha só, moço, eu estou já suando de nervoso, faz isso comigo não...

     – Não é suor, senhor João, é uma exsudação normal dos cadáveres. O senhor, como não aceita o fato de estar morto, acha que isso é suor. É um acontecimento normal, mas o senhor não está ajudando em nada ficar aí negando o fato. Está no sistema, pronto. O senhor morreu, é só aceitar e fazer o que deve ser feito. É questão de cidadania, entende? Todos têm seus deveres a cumprir e já estourei o meu horário. Carlos! – disse, virando-se para o homem taciturno – Leva o senhor João daqui; a PM já está lá fora esperando com o camburão e eu tenho que ir embora senão perco o meu horário.

     Enfim chega um PM enorme, cara de paisagem. Cumprimenta os dois homens de pé com um aceno de cabeça e olha fixamente para o pobre homem sentado, o João-morto.

     – Ah, Capitão, que bom que o senhor chegou. – Disse o médico – Esse cidadão aqui está morto, sabe como é, né? Não aceita o fato, aquelas coisas de sempre, diz que não está, que está falando, que está vivo...

     – Todos dizem a mesma coisa. Nunca se conformam.

     O capitão suspirou; esse era mais um morto rebelde. O sistema do Instituto era infalível, mesmo com as quedas de servidor e os minutos intermináveis de se acessar uma página da intranet. Mas o banco de dados era bem feito, isso era inegável. E era para escoltar mais um morto para a cadeia. Viramos babás de defunto agora, não bastavam os presos comuns para dar trabalho?

     Agora era a vez do homem taciturno falar ao Capitão:

     – Aqui estão os papéis dele, com o mandado de prisão anexado ao protocolo do Instituto. Assine aqui, por favor. Essa via, essa outra, aqui, isso. Não, no outro campo. Agora só mais essa última, a verdinha. Pronto. Fica com essa parte aqui que eu estou destacando, pronto. Pode levar, Capitão. Tchau, bom serviço.


Escrito por Nikki às 07h09
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INCLUSÃO SOCIAL (II)

     O capitão foi até João, pegou o infeliz pelo braço. Antes disso colou as luvas cirúrgicas – para evitar contágio: era norma da Vigilância Sanitária, mas nem precisava. O nojo era natural.

     – Bom, senhor João, vamos para a delegacia; o senhor vai ter que preencher uns papéis, tirar fotos e tirar impressão digital... está com todos os dedos das mãos aí, ainda? Não caiu nenhum?

     – Hem? Não, tá tudo aqui... – disse João com voz mais que sumida, já meio alheio a tudo. Era o sentimento de impotência dos bois que estão no curral para o abate. Andaram pelo corredor sem portas novamente, mas dessa vez se dirigiram à porta dos fundos do Instituto para irem ao camburão. Antes de entrar na van da PM foi algemado por um policial.

 

     – Está gravando? – O cameraman fez que sim com a cabeça. – Estamos aqui na frente do Instituto. Como em outros meses, as filas estão impossíveis de serem vencidas pelos poucos funcionários. Temos aqui uma senhora de idade na fila. Há quanto tempo a senhora está nessa fila?

     – Minha filha, eu cheguei aqui às oito da manhã, é um, desrespeito aos idosos, esse país precisa de justiça!

     – O Secretário do Instituto nos afirmou que o problema será sanado dentro em breve, com a abertura de um novo concurso público para preenchimento das vagas em aberto. O Governo liberou uma verba significativa para o aumento de pessoal e de renovação dos computadores do Instituto. Agora são quinze e quarenta e a fila promete se estender até mais de dezenove horas. Herton, é com você.

     O cameraman desligou a máquina. A repórter estava enrolando o fio do microfone enquanto olhava em volta, com pena do pessoal da fila do Instituto. Ainda bem que não é comigo. Nisso, viu lá na ponta do quarteirão o carro da PM. Seu faro de jornalista percebeu que não era somente para dar cobertura às pessoas da fila.

     – Marcelo, tem uma viatura da PM lá na ponta, deve estar acontecendo alguma coisa por lá. Vamos.

     A equipe de jornalismo correu na direção da viatura. Chegaram perto ao mesmo tempo em que João estava despontando pela porta dos fundos, escoltado pelo Capitão.

     – Liga a câmera, vai, rápido! – Disse baixinho a jornalista ao cameraman, já com o microfone a postos, se aproximando do Capitão.

     – Capitão, houve alguma ocorrência dentro do Instituto? – perguntou, enfiando o microfone embaixo do nariz do oficial.

     – Nada a declarar.

     João aproveitou-se da situação e começou a berrar em tom choroso.

     – Eu estou sendo preso porque o Instituto diz que eu estou morto! Eu sou um cidadão obediente às leis, sempre fui! Agora que eu estou nessa situação eu sou tratado como criminoso! Por favor, me salvem, eu não tenho culpa de nada! Me salvem, me tirem dessa situação, eu não sou criminoso!

     A jornalista ficou arrepiada com a situação. Nunca havia visto um morto-vivo antes, só de ouvir falar já ficava com medo e agora estava cara-a-cara com um. Sentiu-se uma idiota pelo medo sentido antes, porque aquele pobre homem era igual a qualquer outra pessoa viva. Falando rápido e deixando seu discurso seco de lado um pouco, viu nisso uma oportunidade excelente de se promover.

     – Estamos transmitindo ao vivo, em caráter extraordinário, a prisão de um senhor morto-vivo. Como é o seu nome?

     – João. João Neves.

     O Capitão estava puxando o preso pelo braço, fazendo força. A jornalista acabou se colocando entre os dois, impedindo a passagem de João.

     – Moça, eu tenho que levar o preso...

     – E do que ele está sendo acusado, Capitão?

     – Ele está morto, e isso é contra a lei. Você deveria saber dessa portaria, já que é jornalista; está escrito que é proibido o trânsito livre de mortos entre os vivos.

    

     – Eu sou um cidadão, a vida inteira paguei impostos de tudo, nunca fui multado no trânsito, sei cantar o Hino Nacional inteiro sem dizer besteira, sempre fui obediente às leis, mas isso é uma arbitrariedade! Eu estou sendo acusado por uma coisa da qual não tive culpa nem me lembro de ter acontecido! Sou pai de família, por favor, me tirem dessa situação!

     – Ele não vai ter direito a defesa nesse caso, Capitão? – O oficial estava para explodir de raiva. Detestava repórteres e aquela câmera mostrava seu rosto em close, coisa perigosa para um policial. – A Defensoria Pública vai tratar desse caso?

     – Pelo Banco de Dados do Instituto ele está morto há dois dias. Isso é tudo.

    

     Voltando-se para a câmera, a jornalista falou então:

     – Estamos transmitindo ao vivo um incidente no Instituto. Este homem, João Neves, está sendo acusado de estar morto e andar entre os vivos. Segundo o Capitão da PM isso é ilegal e está levando João para a delegacia para prestar depoimento. Mais detalhes na edição das sete. Herton, é com você.

     Enrolou novamente o microfone, mas tanto ela quanto o cameraman se esqueceram de desligar os aparelhos. Saíram em disparada para a van da emissora para seguir a viatura e ver o que acontecia na delegacia. Enquanto isso, na emissora, o diretor de notícias viu o fato e resolveu deixar rolar a filmagem. Alertou o anchor man do jornal para falar em off repetindo as palavras da jornalista e soltou a vinheta de Edição Extra. Colocou então no ar a perseguição à viatura e torceu para não estar errado. Estava apostando em um furo ‘daqueles’, porque a prisão de um morto-vivo era sempre mantida em sigilo absoluto por todos os órgãos da Defesa Pública e nunca até então tinha sido posta a público.

 

     Evidentemente, após a vinheta de Edição Extra, todo mundo que está vendo televisão fica de orelha em pé. A audiência estava já dando picos e o povo no geral dentro de bares, casas e lojas de eletrodomésticos estavam parados na frente dos aparelhos, doidos de curiosidade para ver o que estava acontecendo.

     Enquanto a câmera registrava a perseguição pelas ruas da cidade o anchor man repetia o ocorrido. Falava em outras palavras que um morto-vivo havia sido preso no Instituto e editou partes do pedido desesperado do João Neves por justiça, entremeando com imagens ao vivo da ida à delegacia. A van chegou em pouco tempo à delegacia. O Capitão e mais dois soldados retiraram o morto do camburão, algemado, já debaixo de vaias de populares que estavam por perto da delegacia e tinham visto pela TV o que estava acontecendo. A repórter saltou da van e correu na direção do João Neves, gritando para o iluminador da equipe para ligar o spot. O cameraman notou que tinha deixado a câmera ligada, mas estava tão excitado com a matéria que imaginou – corretamente – que o diretor deixaria rolar a matéria sem interrupção. Afinal, estavam com a pauta bem mixuruca para aquele dia.

     – Capitão, Capitão, o que vai acontecer agora ao acusado?

     – Ele vai prestar depoimento, como todo acusado. – Disse, se contendo muito. Sua chata, me deixa trabalhar em paz...

     – Está chegando agora o Procurador. Doutor, o que está acontecendo, exatamente? Por que um morto deve ser preso assim?

     – Boa tarde. Pela Portaria do Ministério um morto é impedido de transitar livremente entre os vivos. É a lei, e está sendo aplicada agora.

     – Mas não há possibilidade de um Habeas Corpus para esse caso?

     – Eu tenho que ler com atenção o inquérito policial. Ele foi preso em flagrante e até eu me inteirar do caso não posso me manifestar.


Escrito por Nikki às 07h09
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INCLUSÃO SOCIAL (III)

     – E as algemas? Precisava realmente transportar esse senhor algemado para a delegacia? Ele representa algum risco?

 

     O Procurador não respondeu; estava embatucado com aquele caso. A lei era relativamente nova e ele ainda não havia lidado com esse tipo de ocorrência. Tinha passado no concurso há pouco tempo, era novato na função, e na faculdade sua turma tinha visto esse tipo de caso muito por alto. Ou seja, não sabia como agir. Saiu de fininho para dentro da delegacia e não respondeu.

 

     Na redação do jornal o diretor colocou novamente o pedido de João enquanto estava sendo preso, na frente do Instituto. Era tática comum fazer esse tipo de coisa para criar empatia no público. E funcionou. Choveram emails para a redação e as linhas telefônicas da emissora ficaram congestionadas.

     No Orkut pipocaram pelo menos cinco comunidades a favor de mortos e outras tantas do tipo “Eu odeio mortos-vivos”. A mais cotada era a “Libertem o João Neves”. Milhares de blogs na Internet se manifestaram contra ou a favor da prisão.

 

     – Estamos aqui agora na frente da DP quarenta e seis – A jornalista sempre se enrolava com numerais ordinais. – e temos aqui conosco uma representante da ONG de Direitos Humanos. Boa tarde. O que a ONG pode fazer em favor do preso João Neves?

     – Ele é um ser humano como todos nós, né? Está morto, mas isso não lhe tira os seus direitos civis e básicos inerentes a qualquer pessoa. Nos vamos estar fazendo um estudo minucioso de seu caso e, de acordo com a lei vamos estar promovendo uma campanha de descriminalização. Eu, particularmente, não vejo mal algum dos mortos andarem entre nós, né?

     – Obrigada. Como vocês podem ver, o caso está promovendo muita movimentação entre as pessoas. Aqui, na frente da delegacia, uma multidão está aguardando o desenrolar do caso, e pelos cálculos da Secretaria de Segurança Pública, mais de quinze mil pessoas estão se aglomerando aqui por causa do caso João, o Morto. Alguns populares estão com faixas e cartazes pedindo a libertação de João. Vamos falar com alguns deles.

     – Boa tarde, por que vocês estão com essas faixas e cartazes aqui? O que vocês esperam que aconteça?

     – O João é um símbolo da cidadania desrespeitada! Ele é um morto, humano como todos nós, e merece justiça!

     – Justiça! Justiça! – Gritava a turba inflamada, pululando atrás do entrevistado.

 

     – Neste canto aqui temos um representante de um grupo. Qual o grupo que o senhor representa?

     – Nós somos do grupo de apoio a pessoas discriminadas. O João é uma vítima do preconceito que corrompe esse país! Existem muitos mortos por aí que não podem nem sair de casa sem serem apontados nas ruas, levar uma vida normal como os outros! Sua cidadania está sendo reprimida e isso é contra a Constituição!

     – Obrigada. – Voltando-se para a câmera de novo. – Como vocês podem ver, o caso de João Neves está mexendo com a população. Mais notícias em breve.

 

     – Desliga isso, vamos embora que eu estou cansada. Essa coisa vai durar mais umas horas, eu preciso de um café.

 

     No seio da população nasceu um repúdio imenso à prisão de João Neves. Sua mulher e filhos estavam já na delegacia, com os nervos em frangalhos, mas ainda assim recebendo apoio da multidão que tinha se aglomerado em frente à delegacia. O Capitão estava exasperado com aquilo. Queria tudo, menos publicidade desse tipo e estava impedido de sair da delegacia enquanto a multidão irada estivesse lá fora. Queria tomar um banho, dormir um pouco.


Escrito por Nikki às 07h07
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