INCLUSÃO SOCIAL (I)
INCLUSÃO SOCIAL (I)
Que fila horrível, droga, tenho mais o que fazer, essa porcaria não anda! Pensava entre os dentes o sujeito de camisa marrom, com senha de número 147 – o marcador de leds-com-um-falhando ainda mostrava 26. Estava um calor daqueles que só os que ficam em filas quilométricas sentem: pastoso, cheio de cheiros azedos de sovacos e cabelos mal lavados, camisas usadas pelo terceiro ou quarto dia, um calor que faz com que todas as luzes fluorescentes daquele saguão insosso se tornassem sóis queimando as retinas.
Chegaram mais dois atendentes para ocuparem seus guichês. Caras sorridentes de cafezinho recém-tomado e tempo de trabalho deliberadamente inobservado. Comum. Normal. Não deveria, mas era sempre assim. Em dias de início de mês essa lengalenga era sempre a mesma. Os rostos dos habitantes das filas eram diferentes, mas com a mesma expressão de raiva resignada, o que fazia com que ao longo das semanas e meses todas as pessoas se parecessem com uma massa de cor indefinida murmurante que deambulava para lá e para cá; coisificar a clientela era decorrência natural daquele trabalho extremamente chato e mal pago. E o cafezinho nem era tão bom assim.
O marcador já mostrou o número 59. Que bom, teve gente que desistiu. Enquanto isso um som misturado sobre personagens de novela, futebol, alguma notícia do jornal, o nome do presidente precedido pelo indefectível “filho da puta”, já elevado ao nível de pronome de tratamento para certas autoridades do país.
74. Mais calor; era hora de almoço e os funcionários estavam mais irritadiços. Hora de mudança de turno ou coisa que o valha. O que dizia que eram funcionários, além do crachá com fotos ainda mostrando cabelos e a magreza de vinte anos atrás de alguns, era a empáfia e o olhar antipático de quem iria rosnar a qualquer momento - estavam no topo da cadeia alimentar naquele local.
110. Aimeudeus, que lerdeza lazarenta...
127. Só mais vinte. 137. Opa, até que enfim. 147.
Foi ao guichê um pouco rápido, doido para se livrar logo daquele lugar.
– Pensionista ou aposentado? – Voz de robô fanho; parecia uma fêmea de jabuti.
– Aposentado, trouxe os documentos para pegar a mixaria. – Piadinha sem graça.
– Um momento, por favor, o sistema está lento... hmm – A servidora franziu o cenho; mau sinal. – O senhor pode, por favor, aguardar na sala 34 A? Fica ali ‘nas esquerda’ – apontando para a direita.
– Ué, deu problema? Que foi que deu aí no sistema?
– O senhor aguarda na sala 34 A, por favor. Apertou o botão do marcador sem olhar mais para ele. – 155.
Na tal sala 34 A estavam ele e mais dois, todos com expressão apalermada e apreensiva. Não tinha janela, funcionário, nada. Só uma outra porta que dava para um local desconhecido. E por ela saiu um homem alto, muito sério e de cabelo besuntado de gomalina, segurando uma prancheta com papéis. Olhou e contou mentalmente as pessoas da sala, olhou novamente para a prancheta e chamou o primeiro nome.
– Nair Santos, pode me acompanhar, por favor? Boa tarde ... – entraram pela porta misteriosa, sumindo lá dentro.
Vou esperar mais ainda nessa coisa, o que pode ter dado errado dessa vez com a minha papelada? Cruzou os braços e as pernas, tentando ficar mais tranqüilo. Ao menos estava sentado, e não de pé como antes. Chegou outro homem não tão ensebado.
– Jairo Gomes Vilhena. Boa tarde ...– sumiram igualmente porta adentro.
Terceiro homem, carrancudo: – João Lima Neves, é o senhor? Vamos lá?
Passaram pelo umbral da porta estranha direto para um corredor longo, sem salas nas laterais, mas com uma porta de pintura desgastada no fundo. João pensou ouvir um barulho abafado de choro, mas não quis dar importância. Estava já bastante tenso com essa coisa toda e estava se preparando emocionalmente para ouvir que seus papéis estavam com problemas e que não ia receber a aposentadoria naquele mês.
– “Seu” João, deixa eu começar logo. Pelo sistema aqui no Instituto consta que o seu nome está na lista de óbitos. Sendo assim, como representante legal do Instituto para esses casos, eu estou lhe encaminhando para a polícia para lhe dar voz de prisão.
– O quê? Mas como? Não está vendo que eu estou aqui sentado falando com o senhor?
– Exatamente por isso. Não sei se o senhor está ciente de que, pela Portaria sancionada ano passado pelo Ministério, os que entraram em óbito estão impedidos legalmente de transitarem pelas ruas. Ou seja, ou vai para o cemitério ou vai para a prisão especial. Se o senhor não tiver condições de arcar com as custas do seu funeral por favor preencha o requerimento F7 e apresente junto a este atestado de pobreza anexando o seu atestado de óbito, cópia autenticada do seu CPF e comprovante de residência para que a Prefeitura lhe forneça um funeral no Cemitério Municipal. Caso contrário, nós vamos ter que levar o senhor para a cadeia.
– Não, não! Houve um engano aí! – Falava meio sem sentir o corpo, de tão nervoso que estava. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Mas o homem à sua frente estava com um tom tão complacente e seguro que devia mesmo ser verdade isso tudo.
– “Seu” João, por favor, acalme-se... vou chamar aqui o psicólogo do Instituto para ter uma palavrinha como senhor, tudo bem?
O homem saiu e voltou uns cinco minutos depois com um outro, de jaleco branco e jeito mais condescendente ainda. Agia como se isso fosse a coisa mais banal do mundo, apesar de ser uma situação patética.
– Senhor João Neves, muito prazer. Meu nome é Dr. Ari Quadros, psicólogo do Instituto. Soube que o senhor está em fase de negativa de óbito, isso é muito comum, não se preocupe. Estou aqui para ajudá-lo a superar esse trauma e fazer com que o senhor aceite com tranqüilidade o seu funeral e seu descanso merecido desta vida.
– Só que eu NÃO ESTOU morto, entendeu? Estou falando aqui com vocês, faço tudo que todo mundo faz, isso é pegadinha por acaso? Não tem graça nenhuma. Cadê as câmeras? Vou dar um pau em você, vou processar!
O psicólogo anotou uns rabiscos em seu caderninho.
– Agressividade não leva a nada, senhor. Essa fase é realmente dolorosa para muitos, especialmente para aqueles que não estavam doentes antes da morte. Nós compreendemos seu drama, senhor João, mas o senhor deve também querer se ajudar, aceitando o fato e deixando que nós tomemos conta do seu caso como deve ser feito. Eu duvido que o senhor prefira ir para a cadeia especial. Lá o senhor vai passar pelo mesmo processo de óbito de novo, é desagradável, é um sofrimento duplo para a família e ainda onera o Estado. E outra coisa: a Vigilância Sanitária pode lhe aplicar uma multa por andar por aí, o senhor está morto, certo? Então, não pode ficar por aí se misturando aos vivos. Olha só, pelo Instituto o senhor morreu anteontem, não lembra?
– Anteontem eu estava numa churrascaria! Eu estou vivo, moço – já falando com tom de menino perdido – olha só, moço, eu estou já suando de nervoso, faz isso comigo não...
– Não é suor, senhor João, é uma exsudação normal dos cadáveres. O senhor, como não aceita o fato de estar morto, acha que isso é suor. É um acontecimento normal, mas o senhor não está ajudando em nada ficar aí negando o fato. Está no sistema, pronto. O senhor morreu, é só aceitar e fazer o que deve ser feito. É questão de cidadania, entende? Todos têm seus deveres a cumprir e já estourei o meu horário. Carlos! – disse, virando-se para o homem taciturno – Leva o senhor João daqui; a PM já está lá fora esperando com o camburão e eu tenho que ir embora senão perco o meu horário.
Enfim chega um PM enorme, cara de paisagem. Cumprimenta os dois homens de pé com um aceno de cabeça e olha fixamente para o pobre homem sentado, o João-morto.
– Ah, Capitão, que bom que o senhor chegou. – Disse o médico – Esse cidadão aqui está morto, sabe como é, né? Não aceita o fato, aquelas coisas de sempre, diz que não está, que está falando, que está vivo...
– Todos dizem a mesma coisa. Nunca se conformam.
O capitão suspirou; esse era mais um morto rebelde. O sistema do Instituto era infalível, mesmo com as quedas de servidor e os minutos intermináveis de se acessar uma página da intranet. Mas o banco de dados era bem feito, isso era inegável. E era para escoltar mais um morto para a cadeia. Viramos babás de defunto agora, não bastavam os presos comuns para dar trabalho?
Agora era a vez do homem taciturno falar ao Capitão:
– Aqui estão os papéis dele, com o mandado de prisão anexado ao protocolo do Instituto. Assine aqui, por favor. Essa via, essa outra, aqui, isso. Não, no outro campo. Agora só mais essa última, a verdinha. Pronto. Fica com essa parte aqui que eu estou destacando, pronto. Pode levar, Capitão. Tchau, bom serviço.